Golpes como del ódio de Dios...”
Assim começa o poema "Los Heraldos Negros', do peruano Cesar Vallejo.
Foi o primeiro que me veio a cabeça quando terminei de ver "Incendies", filme canadense-francês do diretor Denis Villeneuve.

O filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro mas perdeu para “Em um mundo melhor”. Assisti-lo foi como levar um soco no coração e ter uma aula de cinema.
Através da vida de uma mulher, o filme conta a história do Líbano no início da década de 70.
Dois irmãos, ao ler o testamento da mãe, descobrem que têm um pai e um irmão que nunca souberam ter. Em suas últimas palavras, depois de ser acometida por um choque que a deixa catatônica, a mãe pede que os filhos busquem a família no Oriente Médio. A procura é um mergulho num passado digno de uma tragédia grega -meio Romeu e Julieta: uma jovem cristã engravida de um muçulmano desgraçando a si mesma e à família.
Um pouco de história:
Até 1943, o Líbano era uma colônia francesa anexada à Síria. A independência foi complicada pela falta de reconhecimento sírio e pelas divisões religiosas internas: de um lado cristãos e de outro muçulmanos, reforçados em número pelo grande êxodo de palestinos expulsos de Israel, Síria, Jordânia e Egito.
Devido ao êxodo palestino, milhares de refugiados passaram a viver em Beirute e o sul do Líbano passou a ser controlado pela OLP, Organização pela Libertação da Palestina, fundada em 1965.
Quando estourou a guerra civil no Líbano, o país era controlado pelos cristãos. Incapacitados de solucionar suas diferenças religiosas e políticas, muitas milícias foram formadas e chegaram a ser maiores do que o próprio exército. Diante disso, o governo ficou impossibilitado de controlar a situação. As principais milícias eram as cristãs com grande apoio no norte, os xiitas - fortes no sul, as milícias sunitas que apoiavam a OLP, e outros. Os cristãos eram contra a presença dos palestinos no país por apoiar a causa de Israel no Oriente Médio.
Os enfrentamentos foram aumentando com o passar dos anos e em 1975 eclodiu a guerra civil que durou 10 anos e devastou o país. As milícias cometeram sérias violações dos direitos humanos, massacres indescifráveis e transformaram o país num cenário de horror.
Em 82, Israel invadiu o Líbano e expulsou a OLP do país. Chegou a ocupar Beirute, mas recuou para o sul, onde estabeleceu uma zona de segurança. Contra essa ocupação israelense, foi fundado o grupo palestino fundamentalista Hezbollah.
Em 1989, os poderes do presidente cristão passaram a ser compartilhados com os do primeiro-ministro muçulmano e o legislativo foi dividido entre as duas partes. A guerra civil terminou em 1990, mas o sul do Líbano só foi devolvido por Israel em 2000.
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