quarta-feira, 6 de abril de 2011

Carta anônima

Quando somos jovens e apaixonados, escrevemos cartas anônimas.
Quando somos covardes, também.

Assinar um texto é como imprimir o polegar num documento, autenticar um pensamento e, assim, torná-lo de conhecimento público. Pessoas que quiseram publicar textos polêmicos em tempos difíceis criaram pseudônimos. Já foi a maneira de se expressar com assinatura sem ser morto. Não foi o caso de hoje.

Amanheci o dia com uma carta anônima, muitos anos depois dos tempos de colégio. Um vizinho incomodado pelo meu filhote de cachorro, chegado há dois dias, com quatro meses de idade. Pegou em casa um papel amarelado, caneta vermelha e colou a carta no mural da portaria: “seu cãozinho novo é muito chato”. Nada mais. E não assinou.

Reconheço a chatice do barulho. Um cão latindo sem parar é muito chato. Mas nem sempre conseguimos o silencio complacente. O barulho pode ser consequencia de um filhote, de um bebê, de uma obra, de uma festa. Passamos pelo incomodo para depois ter a recompensa. Seja amor dentro de casa, um vizinho feliz depois de dançar a noite toda, ou um espaço mais confortável após meses de tum-tum-tum. Incomoda? Incomoda.

Na verdade, mais do que o incomodo do choro de um recém nascido, do que os gritos de um filhote em fase de adaptação ou do som de “Last Dance” em um momento flashback da festa no andar de cima, o que mais me incomoda é a intolerância, a individualidade extrema que nos cega diante daquele que vive ao lado. “Seu cãozinho novo é muito chato”.

O autor do bilhete provavelmente nao se deu ao trabalho de pensar: este vizinho me incomoda sempre? É mal-educada, me traz transtornos frequentemente, recebe pessoas estranhas no meu prédio, faz barulho irracionalmente, atrapalha minha vida? Bom senso seria pensar que ... talvez algumas horas, talvez alguns dias de incomodo. Que a vizinha com bom senso chamaria um adestrador, faria o possível para minimizar o problema da forma mais rápida para não molestar mais. Com pragmatismo e, mais que isso, com civilidade. E rapidamente o silêncio voltaria a reinar naquele andar tranquilo do pequeno prédio no alto do Jardim Botânico.

Uma carta anônima às vezes faz mais barulho do que um filhote sem dormir. A carta é rasgada, as letras no papel amarelado picotado passam a não fazer sentido. A intolerância fica.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Incendies

“Hay golpes en la vida, tan fuertes ... ! yo no sé!
Golpes como del ódio de Dios...”

Assim começa o poema "Los Heraldos Negros', do peruano Cesar Vallejo.

Foi o primeiro que me veio a cabeça quando terminei de ver "Incendies", filme canadense-francês do diretor Denis Villeneuve.



O filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro mas perdeu para “Em um mundo melhor”. Assisti-lo foi como levar um soco no coração e ter uma aula de cinema.
Através da vida de uma mulher, o filme conta a história do Líbano no início da década de 70.
Dois irmãos, ao ler o testamento da mãe, descobrem que têm um pai e um irmão que nunca souberam ter. Em suas últimas palavras, depois de ser acometida por um choque que a deixa catatônica, a mãe pede que os filhos busquem a família no Oriente Médio. A procura é um mergulho num passado digno de uma tragédia grega -meio Romeu e Julieta: uma jovem cristã engravida de um muçulmano desgraçando a si mesma e à família.

Um pouco de história:

Até 1943, o Líbano era uma colônia francesa anexada à Síria. A independência foi complicada pela falta de reconhecimento sírio e pelas divisões religiosas internas: de um lado cristãos e de outro muçulmanos, reforçados em número pelo grande êxodo de palestinos expulsos de Israel, Síria, Jordânia e Egito.

Devido ao êxodo palestino, milhares de refugiados passaram a viver em Beirute e o sul do Líbano passou a ser controlado pela OLP, Organização pela Libertação da Palestina, fundada em 1965.

Quando estourou a guerra civil no Líbano, o país era controlado pelos cristãos. Incapacitados de solucionar suas diferenças religiosas e políticas, muitas milícias foram formadas e chegaram a ser maiores do que o próprio exército. Diante disso, o governo ficou impossibilitado de controlar a situação. As principais milícias eram as cristãs com grande apoio no norte, os xiitas - fortes no sul, as milícias sunitas que apoiavam a OLP, e outros. Os cristãos eram contra a presença dos palestinos no país por apoiar a causa de Israel no Oriente Médio.

Os enfrentamentos foram aumentando com o passar dos anos e em 1975 eclodiu a guerra civil que durou 10 anos e devastou o país. As milícias cometeram sérias violações dos direitos humanos, massacres indescifráveis e transformaram o país num cenário de horror.

Em 82, Israel invadiu o Líbano e expulsou a OLP do país. Chegou a ocupar Beirute, mas recuou para o sul, onde estabeleceu uma zona de segurança. Contra essa ocupação israelense, foi fundado o grupo palestino fundamentalista Hezbollah.

Em 1989, os poderes do presidente cristão passaram a ser compartilhados com os do primeiro-ministro muçulmano e o legislativo foi dividido entre as duas partes. A guerra civil terminou em 1990, mas o sul do Líbano só foi devolvido por Israel em 2000.

domingo, 20 de março de 2011

"Você tem medo de que?"


Ontem, em noite da maior lua cheia dos últimos vinte anos, falávamos sobre medo. A lua estava mais perto da terra e nem por isso tivemos medo. Chegamos a falar sobre um possível desequilíbrio cósmico que tiraria todos os planetas do lugar e acabaria com tudo. Mas o medo de que falávamos era outro. Era o medo infantil.

Já tive tantos medos na vida que não caberiam neste blog. De meias jogadas no chão que se transformam em serpentes a figuras que apareciam por trás das cortinas do meu quarto. Quando cresci, os medos mudaram. E o medo das meias passou a ser piada em roda de bar.

O medo normal é bom. Funciona como um alerta para nossos limites, pode funcionar com um escudo muito eficiente. Ter medo racional é prever os riscos e buscar formar de evitar esses riscos. Enfrentá-los é vencer barreiras e desenvolver nossa inteligência.

O problema é o medo excessivo. O medo que paralisa e corroi. A esteira rolante que leva a mínima ansiedade ao pavor.

A ansiedade é um medo vago, que persiste, persiste, persiste. Pode aumentar a ponto de tornar uma pessoa disfuncional. E contra isso, é preciso lutar com nossa arma interna chamada coragem. Lutar contra nós mesmos é a maior batalha de todas.

“Quem escala uma montanha em forma de parede não é corajoso, pois na verdade, não tem medo.” Falou um dos reunidos em volta da mesa de jantar manchada por taças sudorosas de prosecco . “Corajoso é quem enfrenta seu medo e vence.”

Sartre dizia: “todos os homens tem medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem”.

Hoje, navegando na internet, encontrei alguns comentários interessantes sobre o tema:

“O medo é um pensamento em sua mente e você tem medo dos seus próprios pensamentos.”... “a maioria dos seus medos não têm base na realidade.” “o medo normal é bom, o medo anormal é destrutivo (“O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy.)

O medo ruim é o medo que paralisa, o medo em que nosso inconsciente transforma fantasia em realidade e cria um mundo real baseado em falsas premissas. O medo bom é o que nos move a superá-los. Crescer é vencer medos.

“Você tem medo de que?”

Ps: foto retirada da internet

sexta-feira, 18 de março de 2011

Violência para que?



“Que tipo de mundo teriamos se saíssemos batendo nas pessoas?” “É assim que começam as guerras.”

As duas frases me marcaram ao assistir ao excelente filme In a Better World ( Em um mundo melhor), produção dinamarquesa que ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro além do Globo de Ouro. O filme mostra o contraste de dois mundos marcados por violências muito distintas com um personagem-chave indo e vindo de um para o o outro. Um médico dinamarquês trabalha em um campo de refugiados na Africa, onde atende meninas estupradas por líderes rebeldes locais. Quando volta para casa, precisa lidar com as dificuldades do filho, vítima de bullyng na escola e, que estimulado por um amigo, decide vingar-se das injustiças do mundo.

A atuação dos atores impressionam, o tema idem. Vale a pena.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Jogada de mestre



The Social Network ou a Rede Social. Primeiro é essencial assistir ao filme com legenda. Mark Zuckerberg é um tsunami verborrágico que fala um jargão internético impossível de se entender. Pretencioso em cada cena, Zuckerberg consegue atrair a nossa atenção como fez com "seu" (seu?) Facebook. Impossível desconectar. Um site que vale, segundo li recentemente, cerca de 40 bilhões de dólares. E como ele ganha TANTO dinheiro? Alguém me explica?

Repensando o Carnaval no Rio

Meu carnaval carioca foi mais do que tranquilo: dentro de casa, trabalhando. Fora o cão, que esperneava à noite por não querer dormir sozinho, tudo correu na santa paz. Não fui à Sapucaí, mas bato palmas para o trabalho que o Paulo Barros realizou na Unidos da Tijuca. Vi poucos desfiles pela Tv, esse me empolgou. Do abre-alas ao final. Fora isso, joguei sinuca e trabalhei. E também passeei de carro pelas ruas da zona sul, onde não me arrisquei a colocar os pés nas calçadas. Imundas. Fedorentas de uma mistura de xixi e cerveja. Não sei se o jeito é proibir a venda de cerveja, o desfile dos blocos, as aglomerações. A mistura não está dando certo. Já foi legal, hoje é insalubre. Segundo uma amiga estrangeira, que está morando no Rio, os jovens no Carnaval estão com a libido explodindo, "prontos para transar e mijar em qualquer lugar". Está certa. Caminhou por um quarteirão em Ipanema e disse que se juntasse todas as camisinhas da calçada faria uma colagem ultra-super-post-moderna. Pode? Isso em Ipanema. Ano que vem, acho que o melhor a fazer é comprar uma frisa e curtir a Sapucaí de um jeito confortável e participativo. Como já fiz nos velhos tempos. Ou de última, fugir do Rio, sem ter que pagar valores exorbitantes por passagens aéreas e pacotes de hotéis. Fugir para uma casa de campo, onde não cheguem multidões com hábitos primitivos de fazer suas necessidades na rua. "Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros, e nada mais."

quinta-feira, 3 de março de 2011

Hóspede no Carnaval

Este ano, veio parar aqui em casa um hóspede de quatro patas: Simon. Estou adorando!