Quando somos covardes, também.
Assinar um texto é como imprimir o polegar num documento, autenticar um pensamento e, assim, torná-lo de conhecimento público. Pessoas que quiseram publicar textos polêmicos em tempos difíceis criaram pseudônimos. Já foi a maneira de se expressar com assinatura sem ser morto. Não foi o caso de hoje.
Amanheci o dia com uma carta anônima, muitos anos depois dos tempos de colégio. Um vizinho incomodado pelo meu filhote de cachorro, chegado há dois dias, com quatro meses de idade. Pegou em casa um papel amarelado, caneta vermelha e colou a carta no mural da portaria: “seu cãozinho novo é muito chato”. Nada mais. E não assinou.
Reconheço a chatice do barulho. Um cão latindo sem parar é muito chato. Mas nem sempre conseguimos o silencio complacente. O barulho pode ser consequencia de um filhote, de um bebê, de uma obra, de uma festa. Passamos pelo incomodo para depois ter a recompensa. Seja amor dentro de casa, um vizinho feliz depois de dançar a noite toda, ou um espaço mais confortável após meses de tum-tum-tum. Incomoda? Incomoda.
Na verdade, mais do que o incomodo do choro de um recém nascido, do que os gritos de um filhote em fase de adaptação ou do som de “Last Dance” em um momento flashback da festa no andar de cima, o que mais me incomoda é a intolerância, a individualidade extrema que nos cega diante daquele que vive ao lado. “Seu cãozinho novo é muito chato”.
O autor do bilhete provavelmente nao se deu ao trabalho de pensar: este vizinho me incomoda sempre? É mal-educada, me traz transtornos frequentemente, recebe pessoas estranhas no meu prédio, faz barulho irracionalmente, atrapalha minha vida? Bom senso seria pensar que ... talvez algumas horas, talvez alguns dias de incomodo. Que a vizinha com bom senso chamaria um adestrador, faria o possível para minimizar o problema da forma mais rápida para não molestar mais. Com pragmatismo e, mais que isso, com civilidade. E rapidamente o silêncio voltaria a reinar naquele andar tranquilo do pequeno prédio no alto do Jardim Botânico.
Uma carta anônima às vezes faz mais barulho do que um filhote sem dormir. A carta é rasgada, as letras no papel amarelado picotado passam a não fazer sentido. A intolerância fica.







